Doutor Sono

Ficha técnica
Título Original: Doctor Sleep
Título Traduzido: Doutor Sono
Ano de Publicação: 2013
Páginas: 480 (Edição de 2014 – Editora Suma)
Data de Publicação nos EUA: 24/09/2013
Personagens: Daniel Torrance, Abra Stone, Rose O’Hara, Dick Hallorann, Wendy Torrance
Conexões: ‘Salem, O Iluminado, A Torre Negra
Personagens Citados: Wendy Torrance, Jack Torrance, Dick Hallorann
Adaptação: Doutor Sono (2019)
Disponível no Brasil pelas Editoras: Editora Suma (2014)
Sobre o livro
Certa vez, quando criança, Danny Torrance quase foi engolfado pelos espíritos malignos do Hotel Overlook por causa de seus poderes especiais de Iluminado. Agora, anos depois, Danny, ou melhor, Dan, já está crescido e usando seus poderes para o bem, ao ajudar os moribundos de um hospital a atravessar para a pós-vida em paz. Entretanto, uma antiga raça de seres que sugam a energia psíquica das pessoas iluminadas está à solta e em busca de novas vítimas para poderem se alimentar — em especial, uma garotinha de doze anos, chamada Abra Stone, cujos poderes são maiores até mesmo do que os de Danny — e apenas Dan Torrance, o Iluminado, terá condições de pará-los.
Resenha
Doutor Sono é uma continuação do icônico O Iluminado de Stephen King, mas em vez de apenas revisitar o universo da família Torrance, a obra mergulha em temas mais profundos de redenção, sobrevivência e o impacto do trauma na vida humana. O livro segue Danny Torrance, agora adulto, lidando com os resquícios da infância traumática vivida no Overlook Hotel, ao mesmo tempo em que tenta lidar com os próprios demônios internos. King explora a natureza da dor e da cura, utilizando a metáfora do “brilho” para simbolizar tanto os dons quanto as maldições que ele acarreta, além de explorar como o abuso, o alcoolismo e os traumas moldam a trajetória de uma vida.
O brilho, ou shining, que dá nome ao livro e à franquia, é uma metáfora poderosa da percepção além do normal, mas também da vulnerabilidade que tal percepção pode trazer. Danny, agora adulto, vive uma existência sombria e solitária, tentando controlar os poderes que herdou de seu pai e sua mãe. O brilho em Doutor Sono é mais uma maldição do que uma dádiva, um fardo pesado que leva Danny a recorrer ao álcool para se anestesiar de sua dor e confusão. A luta dele contra o alcoolismo é central para a narrativa, representando a batalha contra o que o assombra: as lembranças do Overlook, a morte de seu pai, e o medo de se tornar alguém tão destrutivo quanto o próprio Jack Torrance.
A analogia do álcool como uma forma de autossabotagem é uma linha tênue entre a fuga e a autodestruição. King, através de Danny, examina o ciclo vicioso de dor e fuga que muitas pessoas enfrentam em suas próprias vidas, criando um personagem cuja jornada de cura não é linear, mas cheia de retrocessos e momentos de esperança. Danny, assim como os fantasmas do Overlook, está preso no passado, tentando escapar das sombras de sua infância, e o uso do álcool serve como uma forma de diluição de sua capacidade de brilhar, um reflexo da tentativa de esconder o que é incontrolável.
A introdução de Abra Stone, uma jovem com um brilho ainda mais potente do que o de Danny, é uma adição interessante à narrativa, trazendo consigo uma nova dimensão ao conceito de poder. Abra é a representação da inocência que ainda não foi corrompida pela dor e pela perda, contrastando com o Danny adulto que, marcado pelo trauma, está à beira da ruína. No entanto, ela também simboliza a conexão entre as gerações e a continuidade de uma herança, o que reflete como as experiências de uma pessoa podem influenciar a próxima. Abra, ao contrário de Danny, encara seu poder com curiosidade e confiança, enquanto Danny busca desesperadamente fugir dele.
O vilão principal da obra, Rose, a Hats, é uma representação do mal que consome sem piedade. Seu grupo, os “Vapor”, que se alimenta dos “brilhantes”, reflete uma metáfora para a exploração do que é único e especial, transformando-o em algo destrutivo. Rose e seus seguidores representam a depreciação e a corrupção do poder, utilizando-o para a sobrevivência às custas de outros. King, como é típico em suas obras, não oferece um vilão simples ou maniqueísta. Rose é complexa, e sua luta pela imortalidade e pelo controle reflete as obsessões humanas por poder e eternidade, uma ideia que é central em muitas de suas histórias. Rose vê o poder como algo que deve ser extraído dos outros, o que traz à tona a questão do egoísmo versus empatia, a luta constante entre o bem e o mal que acontece dentro de cada um.
A ideia de cura também é uma das pedras angulares do romance. Danny, com sua habilidade de “brilhar”, não apenas transmite a dor de sua própria experiência, mas também a esperança de que, com apoio e compaixão, os feridos podem ser curados. Isso se reflete em seu relacionamento com Abra, onde ele encontra um propósito maior que o resgata da escuridão e da auto-destruição. O final da história, que não se limita a um simples ato de heroísmo, mas sim a uma mudança interna e um crescimento de ambos os personagens, serve como um lembrete de que a verdadeira cura vem do enfrentamento do passado e da aceitação do que se é.
O livro também utiliza o cenário como uma metáfora de desolação e regeneração. O cenário do hospital, onde Danny trabalha como enfermeiro, é um reflexo de sua própria vida. Ele é um lugar onde a vida e a morte coexistem, e onde Danny tem a chance de confrontar suas próprias limitações enquanto tenta ajudar os outros a morrer com dignidade. O hospital representa, assim, um local de transição e transformação, assim como a própria jornada de Danny.
Doutor Sono é uma história de esperançosa resiliência, mas também de lamento e perda. King apresenta um retrato comovente de como as cicatrizes do passado podem assombrar o presente, mas também de como o poder da compaixão, a conexão humana e a aceitação podem ser formas poderosas de cura. O brilho, mais do que uma habilidade extraordinária, é um reflexo do que é humano em cada um de nós: o desejo de ser compreendido e o medo de ser consumido pelas sombras de nossas experiências. King, com sua prosa caracteristicamente profunda e introspectiva, cria um mundo onde o mal existe, mas onde a luz do espírito humano também pode brilhar.
Curiosidades
- A publicação do livro se deu exatamente 36 anos após O Iluminado (publicado em janeiro de 1977).
- King fez uma enquete sobre qual livro os fãs gostariam que ele escrevesse, uma sequência para O Iluminado, ou um oitavo livro da saga A Torre Negra. Apesar de Doctor Sleepter ganhado (5.861 votos, contra 5.812 de O Vento pela Fechadura) King resolveu escrever esse primeiro, e o publicar também antes de Doctor Sleep.
- King narrou o prólogo do livro no audiobook do oitavo livro da saga A Torre Negra, O Vento Pela Fechadura, lançado em abril de 2012.
- No dia 08 de maio de 2012, foi anunciado que o livro seria lançado em janeiro do ano seguinte. Entretanto, o lançamento acabou sendo postergado. No dia 19 de setembro, foi finalmente anunciado que a data definitiva do lançamento do livro seria 24/09/2013.
- King disse que quando as pessoas perguntavam a ele o que havia acontecido com Danny Torrance, ele sempre respondia “se casou com Charlie McGee de A Incendiáriae teve crianças maravilhosas”. Isto até ele pensar realmente em escrever a história.
- De acordo com King, a inspiração para o livro veio de uma notícia no jornal da TV que assistiu cerca de cinco anos antes, sobre um gato num hospício que parecia sempre saber quem estava para morrer. O gato entraria no quarto, subiria na cama, e pouco tempo depois, o paciente visitado pelo gato faleceria.
- King batizou a personagem Abra em homenagem à protagonista do livro A Leste do Eden, de John Steinbeck. De acordo com o mesmo, Abra foi criada porque ele estava com saudades de usar crianças em suas histórias, como nos casos dos livros O Cemitério, A Coisa, e ‘Salem.
- Numa entrevista para o Entertainment Weekly, onde King foi perguntando sobre sequências, ele confessou que chegou bem perto de escrever um romance chamado Chrome, que seria uma sequência para os livros do protagonista Travis McGee, criado por John D. MacDonald (falecido em 1986). Ele escreveu uma carta para Maynard MacDonald (filho de John), explicando que doaria todos os lucros para caridade. Apesar de comovido, Maynard achou melhor deixar o legado do pai intocado. King confessou também que na época ficou bastante irritado, mas, que com o passar do tempo, entendeu que tinha sido a coisa certa a se fazer.
Referências Locais
- Em certo ponto da história, há uma menção a Topeka, a cidade aparece em A Torre Negra Vol. 4 Mago e Vidro.
- Há menção a cidade de Castle Rock, cidade ficticia importantíssima no universo do King, palco de vários livros como Cujo, Zona Morta, Metade Sombria e Trocas Macabras.
- É citada a cidade de Jerusalem Lot’s, cidade ficticia importantíssima no universo do King, palco do livro Salem.
- É mencionada a cidade Bounder, cidade muito importante no livro A Dança da Morte.
Referências Biográficas
- Gemma T, menciona que atropelou um homem quando estava bebada, fato que remete ao acidente que o próprio Stephen King sofreu no inicio dos anos 2000.
- No A Teoria da Relatividade de Abra, é mencionado por Dan que ele e sua mãe se mudavam muito, isso é um analogo ao próprio Stephen King que se mudou muito com sua familia durante a infância.
Referências Culturais
- Em certo ponto da história,, há uma menção a “Hey Jude” do The Beatles, música que aparece inumeras vezes durante os livros da serie A Torre Negra.
- Neste livro há algumas referencias ao livro NOS4A2 (Nosferato) do autor Joe Hill, filho de Stephen King, como exemplo tem referência a Charlie Manx, o vilão do romance NOS4A2, há uma menções a Christmasland (Terra do Natal), local onde Charlie Manx, leva as crianças após as capturar.
- Frederika Bimmel é mencionada. No romance O Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris, uma das vítimas do assassino da história possui (quase) o mesmo nome: Frederica Bimmel.
Referências Narrativas
- No inicio do livro, há menções ao ano 1981… – 1+9+8+1 = 19, menção ao numero místico da série A Torre Negra.
- Danny aprende com Dick sobre Cofre e Prateleiras imaginarios, em O Apanhador de Sonhos, o personagem Jonesy possui a mesma habilidade (organizar pensamentos e memórias em “arquivos” mentais).
- Enquanto Rose invade os sonhos de Abra, ela percebe que a garota encheu o ambiente de guarda-arquivos e estantes contendo suas “memórias”. Em O Apanhador de Sonhos, o personagem Jonesy possui a mesma habilidade (organizar pensamentos e memórias em “arquivos” mentais).
- Hallorann se refere ao “True Knot” como os “Demônios Vazios”. Demônios Vazios é o título de um dos livros de Scott Landon, marido de Lisey Landon, protagonista do romance LOVE: A História de Lisey.
- Dan Torrance profere o seguinte: “Há outros mundos além deste”. Esta frase é muito famosa e conhecida aos leitores da saga A Torre Negra.
- Em certo ponto da história, Dan “engole” a essência da alma de uma das personagens e eventualmente a libera para destruir alguns dos vilões. Tal poder traz uma semelhança com o dom do gigante John Coffey, de À Espera de um Milagre, que sugava a enfermidade de uma pessoa, para logo depois liberá-la pela boca na forma de um “enxame” de cinzas.
- Dan pensa como a Vida é como um disco, cuja a única tafera é girar, e que sempre volta ao inicio, dizer muito semelhante ao mitilogia do Ka, durante a Serie A Torra Negra
- É mencionada a revista Inside View, tabloide fictício presente em romances como A Zona Morta e Joyland.
- Durante a história há várias menções ao 19, numero místico da série A Torre Negra.
- Rose observa que Tommy, um iluminado de Delaware tinha 19 anos.
- Concetta Raynolds mora na Marlborough, nº 219.
- Concetta Raynolds, diz como a natureza humana muda e como Abra podera repensar nisso novamente aos 19 anos.
- Dan diz Dick Dick Hallorann morreu em 19 de Janeiro de 1999.
- De acordo com o mapa de Billy são 1900 quilometros de distancia entre Cincinatti e Denver.
- Quando Brad foi capturado pelo Barry Tapa, é mencionado por Abra como “Ele caminhou pelo milharal e o homem estava esperando por ele“, referencia ao conto Crianças no Milharal do livro Sombras da Noite.
- Dan “reve” seu pai morto no final de O Iluminado, após o fim da Batalha com o Verdadeiro Nó no local onde era o Hotel Overlook.
Assuntos Recorrentes
- Alguém é Iluminado, Danny Torrence, Dick Hallorann, Abra Stone e os membros do Verdadeiro Nó são iluminados e tem várias habilidades.
Menções e Referências em Outros Livros
- Durante a história é dito que a boy band fictícia “Round Here” (uma provável paródia da One Direction) é a banda favorita da menina Abra, faz uma aparição no livro Mercedes.